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A eletricidade custou zero em 768 horas de 2026. Porque não desceu a tua fatura?

Entre 1 de janeiro e 8 de outubro de 2026, a eletricidade no mercado grossista português custou zero euros, ou menos, durante 768 horas. Em 599 dessas horas, o preço foi negativo: quem produzia pagava para entregar energia à rede.

Mesmo assim, quase ninguém viu isto na fatura. Fomos aos dados do OMIE, hora a hora. Queríamos perceber o que se passou e porque é que a tua conta não desceu.

O que é o preço do OMIE

O OMIE é o mercado grossista de eletricidade de Portugal e Espanha. Todos os dias, fixa o preço de cada quarto de hora do dia seguinte. Os preços de amanhã costumam sair por volta das 13h, hora de Lisboa. É a referência do preço a que os comercializadores compram a energia que te vendem.

Podes ver o preço de hoje e de amanhã, hora a hora, na nossa página preço da luz hoje.

2026 em números

Indicador

Valor

Preço médio

7,7 cêntimos por kWh

Horas a zero ou menos

768 (11% das horas)

Horas com preço negativo

599

Dias com pelo menos uma hora a zero

125

Hora mais barata

−0,98 cêntimos (29 de março, 15h)

Hora mais cara

33,7 cêntimos (30 de setembro, 20h)

Para comparar: a 8 de outubro, a tarifa de preço fixo mediana custava ao consumidor entre 17 e 20 cêntimos por kWh. Esse valor já inclui redes e impostos, e muda com a taxa de IVA.

A hora mais barata já não é de noite

Durante anos, a eletricidade barata era a da madrugada. Em 2026, isso mudou. As horas mais baratas foram as do meio-dia, quando os painéis solares produzem mais.

Hora (Lisboa)

Preço médio em 2026

3h da manhã

9,3 cêntimos/kWh

13h

2,2 cêntimos/kWh

20h

13,3 cêntimos/kWh

Entre as 12h e as 15h, o preço médio ficou à volta de 2 cêntimos. Às 20h, quando toda a gente chega a casa e liga o forno, foi seis vezes mais caro. Das horas a zero, mais de oito em cada dez caíram entre as 9h e as 17h. Entre as 18h e a meia-noite, houve só uma.

O fim de semana também foi mais barato: 6,2 cêntimos em média, contra 8,3 nos dias úteis.

Mês a mês: de quase grátis a caro

Mês

Preço médio

Horas a zero ou menos

Janeiro

7,1 cêntimos

18

Fevereiro

1,1 cêntimos

143

Março

4,1 cêntimos

133

Abril

4,3 cêntimos

134

Maio

5,4 cêntimos

113

Junho

7,0 cêntimos

79

Julho

10,7 cêntimos

67

Agosto

12,1 cêntimos

52

Setembro

14,4 cêntimos

25

Outubro (1 a 8)

17,0 cêntimos

4

Fevereiro foi o mês mais barato do ano. Desde junho, o preço não parou de subir. Nos primeiros dias de outubro, a média já era mais de quinze vezes a de fevereiro.

Porque é que o preço chega a zero

O preço do OMIE resulta do encontro entre quem quer vender e quem quer comprar. Quando o sol, o vento e a água produzem mais do que o país consome, sobra energia. Alguns produtores aceitam vender a zero, ou até abaixo, em vez de desligar. O preço cai.

À noite não há sol. Entram centrais mais caras, como as de gás, e o preço sobe.

Então porque é que a tua fatura não desceu?

Há três razões.

  1. Num preço fixo, o mês não conta. Pagas o mesmo por kWh o ano inteiro. O comercializador faz a média por ti: não ganhaste com fevereiro, mas também não perdes com outubro.

  2. A energia é só uma parte da conta. Pensa num casal que gasta 1900 kWh por ano, com 3,45 kVA. Com uma oferta de preço mediano, paga cerca de 483 euros por ano. Desses, só 184 euros são a energia do comercializador, já com os custos e a margem dele. A potência do comercializador soma 48 euros, as redes 178 e os impostos e taxas 72.

  3. As horas baratas são ao meio-dia. É quando muita gente está fora de casa. As horas caras são ao fim do dia, quando mais se consome.

Quem ganha com as horas a zero

Quem tem uma tarifa indexada. Nestas tarifas, o preço da energia segue o OMIE, segundo a fórmula de cada contrato. Em fevereiro, quem tinha uma indexada pagou muito menos pela energia.

Mas o risco vale para os dois lados. A média mensal passou de 1,1 cêntimos em fevereiro para 17 cêntimos em outubro. Numa indexada, essa subida chega à fatura.

Como tirar partido disto

  • Vê o preço de amanhã a partir das 13h, na página preço da luz hoje.

  • Se tens uma indexada, põe a máquina da roupa ou da loiça a trabalhar ao meio-dia, sobretudo ao fim de semana.

  • Se tens preço fixo, a hora não muda o preço. O que muda a conta é o tarifário. Para o mesmo casal, a oferta de preço fixo mais cara custa mais 338 euros por ano do que a mais barata. Vê qual é o tarifário mais barato este mês.

De onde vêm estes números

Usámos os ficheiros diários públicos do OMIE, com o preço marginal para Portugal. Cobrem de 1 de janeiro a 8 de outubro de 2026. Convertemos tudo para a hora de Lisboa e fizemos a média de cada hora. Os valores são preços grossistas, sem redes, impostos nem margem do comercializador.

Os números da fatura vêm das ofertas publicadas pela ERSE a 8 de outubro de 2026. As contas seguem a metodologia do PoupaNaEnergia. Fonte dos preços grossistas: OMIE.