Fatura da luz muito alta? As causas e o que fazer
A fatura da luz veio muito mais alta do que o normal? Quase sempre há uma explicação, e há regras que te protegem. Neste guia vês as causas mais comuns, os teus direitos e como reclamar.
Primeiro, olha para a fatura
Procura nela três coisas:
Os kWh faturados. Compara-os com os das faturas anteriores. Se subiram muito, gastaste mais ou houve um acerto.
Se a leitura é real ou estimada. A fatura diz se o consumo vem de uma leitura do contador ou de uma estimativa.
O período. Uma fatura que cobre mais dias do que o costume sai mais alta, mesmo que gastes o mesmo por dia.
Causa 1: leituras estimadas e o acerto
Sem leitura real, o comercializador fatura uma estimativa. Essa estimativa segue um perfil de consumo definido pela ERSE. Quando chega uma leitura real, faz-se o acerto: pagas a diferença entre o que gastaste e o que te cobraram. Se as estimativas ficaram abaixo do que gastaste, o acerto pode ser grande.
Quase todas as casas já têm contador inteligente, que envia as leituras sozinho. Se o teu não envia, a E-REDES lê-o de três em três meses. Entretanto, podes dar tu a leitura:
no Balcão Digital ou na app da E-REDES;
pela linha gratuita 800 507 507, a qualquer hora;
ao teu comercializador.
As datas para dar a leitura vêm na fatura. Se a E-REDES passar 4 meses sem acesso ao contador e sem leituras tuas, faz uma leitura extraordinária. E és tu quem a paga.
Os teus direitos num acerto
Só te podem cobrar os últimos 6 meses. O direito a cobrar um consumo prescreve 6 meses depois. Um acerto também não pode recuar mais de 6 meses.
Tens de invocar a prescrição. Não é automática. Diz ao comercializador, de preferência por escrito, que o consumo com mais de 6 meses prescreveu. A partir daí, não te podem cortar a luz por essa dívida.
Podes pagar em prestações. Tens esse direito quando o acerto é igual ou maior do que a tua média mensal dos últimos 6 meses. O comercializador tem de te propor, na própria fatura, um plano até 12 prestações. Também podes pagar tudo de uma vez.
Sem juros, se o atraso não foi culpa tua.
Causa 2: gastaste mesmo mais
No inverno, um aquecedor de 2 kW gasta 2 kWh por hora, cerca de 40 cêntimos. Quatro horas por dia, durante um mês, são perto de 50 euros. O termoacumulador, o ar condicionado e a máquina de secar também pesam. Vê quanto custa cada eletrodoméstico.
O IVA também conta. Se a tua potência for até 6,9 kVA, os primeiros 200 kWh de cada 30 dias pagam IVA a 6%. Nas famílias numerosas, o limite sobe para 300 kWh. O resto paga 23%. Num mês de muito consumo, mais kWh passam para a taxa de 23%.
Causa 3: o preço subiu
O teu comercializador mudou o preço. Tem de te avisar antes. Durante uma fidelização, o comercializador só pode mudar o preço a teu favor.
Tens uma tarifa indexada. O preço segue o mercado grossista. Em 2026, a média mensal desse preço foi de 1,1 cêntimos por kWh em fevereiro. Nos primeiros dias de outubro, já ia em 17 cêntimos. Lê porque é que a luz chegou a custar zero e, mesmo assim, a fatura não desceu.
Acabou uma promoção ou um desconto de boas-vindas.
Causa 4: potência a mais
Pagas a potência todos os dias, mesmo que não gastes nada. Para um casal que gasta 1900 kWh por ano, passar de 3,45 para 6,9 kVA custa mais 114 euros por ano. Vê no guia da potência contratada se a tua é a certa.
Para onde vai o dinheiro da fatura
Pensa num casal que gasta 1900 kWh por ano, com 3,45 kVA e uma oferta de preço mediano. Paga cerca de 483 euros por ano, assim divididos:
Parte da fatura | Por ano |
|---|---|
Energia do comercializador | 184 € |
Redes (energia e potência) | 178 € |
Potência do comercializador | 48 € |
IVA | 36 € |
Contribuição audiovisual | 34 € |
Imposto sobre a eletricidade e taxa da DGEG | 3 € |
Total | 483 € |
Valores de 8 de outubro de 2026. As redes custam o mesmo em todos os comercializadores. Só a energia e a potência do comercializador mudam de oferta para oferta. É aí que se poupa.
Como reclamar
Reclama primeiro ao comercializador. Tem no máximo 15 dias úteis para te responder.
Usa o Livro de Reclamações, em papel ou eletrónico. Todos os comercializadores o têm.
Pede ajuda à ERSE, por escrito, se a resposta não chegar a tempo ou não te convencer.
Vai a um centro de arbitragem de consumo. Se escolheres a arbitragem, o comercializador é obrigado a aceitá-la.
Podem cortar-me a luz enquanto reclamo?
Se a tua reclamação trouxer indícios concretos de um erro na fatura, o corte por essa fatura fica suspenso até à decisão. Continuas a ter de pagar as outras faturas, as que não contestas.
Em qualquer caso, um corte tem regras:
Aviso por escrito, com pelo menos 20 dias de antecedência.
Primeiro, a potência baixa para 1,15 kVA, com pelo menos 5 dias de aviso, antes de um corte total.
Nunca no último dia útil da semana nem na véspera de um feriado.
30 dias de aviso para clientes economicamente vulneráveis.
E se o contador estiver avariado?
Reclama ao comercializador ou à E-REDES, com os factos que te fazem desconfiar. A E-REDES tem de marcar uma visita contigo em 15 dias úteis.
Se as dúvidas continuarem, podes pedir uma verificação extraordinária num laboratório acreditado. O preço não é fixo: depende do laboratório. Se o contador estiver bem, pagas tu a verificação. Se estiver avariado, paga a E-REDES.
Uma fatura alta é uma boa altura para comparar
Se a culpa é do preço, a solução é mudar de tarifário. Mudar é grátis e não corta a luz. Envia a tua fatura e vês quanto pagarias em cada oferta, com o teu consumo real. Vê também como mudar de fornecedor.